Clínica Geral

Como lidar com a questão da medicalização na modernidade

Por Rafaela Monteiro 12/10/2013

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A indústria farmacológica vai de vento em poupa. Assim como nosso sistema internacional de classificação das doenças. Nele temos tudo listado, enquadrado, classificado. E para cada classificação temos seu adequado medicamento. A lista de remédios e de doenças não tem fim. Se pararmos para avaliar, com certeza, achamos uma classificação para nós, para nossos amigos, familiares, etc.

Quem foi estudante da área da saúde e teve aulas de psicopatologia com certeza se divertiu, ou se assustou, encaixando algum conhecido nos diagnósticos dados em aula.

Brincadeiras a parte, a questão pode ser preocupante. Pois podemos nos perguntar: para onde essa onda de diagnósticos e classificações está nos levando? Muitas das vezes nos reduzimos a esses diagnósticos que nos classificam, nos enquadram e nos padronizam de certa forma. E estamos nessa. Muitos clientes chegam ao consultório já diagnosticados, seja por outros profissionais, amigos, parentes, por eles mesmo, enfim. Já chegam afirmando: Eu sou isso. Eu tenho aquilo. Reduzidos a uma doença, a uma classificação.

 

A questão merece reflexão

No entanto, a Gestalt Terapia, que é uma abordagem que não busca olhar somente para o sintoma ou para a doença, tentando se afastar de tantas nomenclaturas. A Gestalt busca olhar para o sujeito que sofre. Para a angústia que ele vive, que ele traz.

Muito antes de uma depressão, de um transtorno, existe uma pessoa. Um ser. Um sujeito. E é pra ele que queremos olhar. As vezes é preciso deixar as classificações de lado e avaliar  o todo em que a pessoa vive. Não estou falando que não devemos nunca medicar ou tratar da síndrome enquanto síndrome. As vezes, a medicalização é necessária e devemos lançar mão dela. Mas nada deve ser reduzido somente a isso. Pois o que muitas vezes acontece é uma redução do sujeito a sua “doença” e a droga específica para ela, deixando de lado toda sua vida, sentimentos, contexto.

 

Muito além do sintoma

Acreditamos que a pessoa deve ser olhada, o ser humano em questão deve ser visto como um todo. Pois, para além da doença e do sintoma existe toda uma vida e um contexto a ser visto, e o fato é que não adianta apenas tomar um remédio e esperar os problemas passarem.

Pacientes com depressão muitas vezes acham que somente o remédio anti depressivo vai lhes curar. Muitas pessoas, erroneamente, acham que basta tomar um remédio que tudo se resolve. Não há droga que resolva uma angústia, a dor de uma perda ou qualquer outro sofrimento. Claro que em alguns momentos elas contribuem para todo um processo de tratamento, mas o cuidado que temos que ter é como estamos usando essas drogas e qual a nossa implicação diante das nossas questões.