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Um dos maiores obstáculos que vejo no consultório é quando na primeira consulta, antes do paciente entrar, recebo um bilhete da minha secretária dizendo que ele não sabe o seu diagnóstico e a família não quer que eu conte. O raciocínio, na maior parte das vezes, é de proteger o ente querido. “Ele não vai querer se tratar caso contemos a verdade”, dizem uns. “Ela vai entrar em depressão” dizem outros. “Ele já esta debilitado, se falarmos a verdade vai se entregar de vez…”. As justificativas são muitas, e todas fazem muito sentido, em um primeiro momento. O problema é o depois…

 

O impacto já na primeira consulta

Voltemos à primeira consulta: o paciente está entrando em uma clínica ONCOLÓGICA. Na sala de espera estão pacientes que muitas vezes estão sem cabelo, conversando sobre sua quimioterapia ou sua doença. A não ser que a pessoa não saiba ler ou esteja completamente sem atenção, vai começar notando que algo estranho se passa.

Na consulta, eu, o médico, querendo evitar passar a “informação proibida”, sou impedido de adentrar em alguns assuntos mais específicos sobre a doença, mas cruciais para uma entrevista completa. Pior é quando a família fica dando sinais com as mãos ou tentando fazer com que eu entenda alguma leitura labial pelas costas da pessoa doente. A intenção é de se comunicar comigo “em segredo” para ajudar no meu entendimento da situação, mas acaba deixando tudo muito mais constrangedor e difícil.

Na hora de discutir o tratamento sou forçado a evitar a palavra “quimioterapia”, ainda que na hora de receber o remédio o paciente entraria no recinto cujo nome na porta é justamente esse: QUIMIOTERAPIA. Mais tarde podem ocorrer os efeitos colaterais: Náusea, perda de cabelos…

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Esconder a verdade funciona?

Descrevendo essa situação, fica claro que omitir ou mentir ao paciente é na melhor das hipóteses algo ineficaz e, na pior, algo que quebra a confiança da pessoa tanto no médico quanto na própria família. Imagine ter que passar por todo o tratamento sem saber se as pessoas que te amam estão escondendo algo de você. Não deve ser fácil.

É por isso que assumo algumas condutas muito claras logo de começo. Na primeira ou segunda consulta, sempre converso sobre a doença e o tratamento depois da anuência da família. O indivíduo doente PRECISA saber o mínimo necessário para que entenda sobre essas duas questões. Mais que isso vai depender somente dele. Alguns não querem saber nada, e por isso nada perguntam. Outros irão perguntar todos os detalhes que podem, inclusive, ser muito cruéis, e respeitarei a vontade deles. Isso é respeitar a autonomia.

Cada pessoa adulta deve ser responsável por suas próprias decisões e aceitar os riscos de cada uma. Se o ente querido não quiser se tratar, será uma escolha dele. Meu dever, e da família, será sempre o de trazer a maior quantidade de informações e suporte para que essa escolha seja a mais informada possível. Não podemos ir além disso.

Um período de reação à má notícia é normal e esperado. Tristeza, revolta, desânimo… são fases que o enfermo irá passar. É inevitável. Porém, se serve de consolo, as pessoas são muito mais fortes do que pensamos. Isso aprendi com minha especialidade. Findada esse período inicial, a maioria esmagadora das pessoas vai levantar a cabeça e encarar o problema de frente, sabendo que tem sua família e seu médico a seu lado.

*Atenção! Abordei este assunto de uma maneira bastante “genérica” e para adultos. Casos particulares de autonomia limitada, doenças de cunho psiquiátrico, etc, devem sempre ser discutidas individualmente. Na verdade, essa é uma situação onde o médico deve ser SEMPRE seu aliado na tomada de decisões, ok?

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