Relato de mãe

A moça no espelho, por Mariana Parreiras

Por Redação Doutíssima 03/03/2015

Mariana Parreiras, como todas as mulheres após a gravidez, passou a cuidar dos filhos e se esqueceu dela. Num relato bem divertido, mas bastante sincero, ela conta como revirou o fundo do baú para recuperar a autoestima. Na luta contra a balança, ela quer agora voltar a vestir as roupas de quando era apenas uma garota de 20 anos. Desafio nada impossível para essa supermãe. Acompanhe!

 

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“O espelho cria ilusões de ótica, a balança é mentirosa, mas as fotos não mentem.” Foto: Shutterstock

 

Meu armário é composto por três tipos de roupas.

A categoria de número três, contém as calças elásticas, as camisas soltas, as roupas (que vergonha!) de maternidade que muitas de nós mamães ainda continuamos usando muito depois de o bebê deixar de ser um bebê.

 

A categoria número dois, representada por oitenta por cento do meu armário, é composta principalmente de roupas adquiridas antes da gestação, pequenas calças, pequenas saias, e pequenas camisas que uma vez vestiram uma mulher que não mais é pequena.

 

Na categoria número um eu já não entro desde os vinte anos de idade. Imagino que toda mulher mantenha algumas roupa nesta categoria, para lamentar e admirar onde um dia seu quadril coube. Eu vinha ostentando a categoria três descaradamente e apenas recentemente andava me re-apresentando à categoria dois, mesmo que eu não possa respirar livremente quando use essas roupas.

 

Comecei a levar a sério a perda de peso depois de algumas fotos do Natal. O espelho cria ilusões de ótica, a balança é mentirosa, mas as fotos não mentem. Será que eu realmente estava tão gorda? Eu li em algum lugar que não existem fotos feias, que nós simplesmente somos assim de vez enquanto. A não ser que as fotos de Natal estivessem em terceira dimensão, aquela redonda era realmente eu. Desde então, e com cada quilo perdido, eu venho lentamente reconhecendo meu rosto no espelho.

 

Este meu armário cheio, desatualizado e semi-abandonado é o tipo de assombração para a autoestima de muitas mães nos primeiros anos após ter um filho. Mas por que não perdemos peso mais rápido? Melhor ainda, por que não podemos perder peso mais rápido?

 

Aqui estão algumas conclusões a que cheguei:

 

1) Gravidez

Claro, mas nós gostamos de culpá-la, não é mesmo? Nós dizemos que comemos por dois, embora um de nós tenha o tamanho de uma pequena fruta durante a maior parte do processo.

 

E, mesmo eu conseguindo manter um peso saudável durante as duas gestações, a natureza arruma uma maneira estranha de adicionar gordura em lugares onde nunca antes nos deparamos, como no meu nariz.

 

Um dia eu acordei e notei que a mulher no espelho me olhando de volta tinha o nariz gordo. Não é a toa que a mulher grávida é considerada irracional, hormonal. Até o nariz muda. Quero ver tentar ser racional assim.

 

2) Amamentação

Se você, leitora, for uma daquelas mulheres míticas que perdem peso ao amamentar, não podemos mais ser amigas. Sim, a amamentação queima calorias, muitas delas, mas o que mais ela faz? Cria uma fome de leão. O corpo irá precisar de quinhentas calorias a mais por dia para produzir o leite, mas o apetite pedirá mil.

 

Um dia eu estava olhando o meu adorável bebê “rechonchudo” enquanto ele mamava e senti de repente uma fome inexplicável. Já que no momento eu não podia me levantar para investigar (mais uma vez) a geladeira, me peguei pensar, por alguns segundos, se podia comer o bebê.

 

3) Lanches infantis

Eles são deliciosos e as crianças nunca os terminam. Sendo que eu venho da cultura onde o desperdício de comida é inaceitável, eu cuido desses resíduos ao consumi-los. É para o bem da humanidade, realmente.

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Ginástica em grupo para as mamães recuperarem a forma. Foto: Arquivo pessoal.

4) Tempo para se exercitar

Desativar uma bomba em uma montanha russa em movimento é mais fácil do que malhar em casa com as crianças ao redor. Aqui na Califórnia as mulheres levam carrinhos de bebê para a praia e se exercitam em grupos compostos de outras mães. Isso funcionou com sucesso para mim por um tempo até o dia em que meu filho (então de dois anos), decidiu tentar saltar do cais para o oceano. O cinto de segurança do carrinho já não podia mais conter sua vasta energia.

 

Eu entrei assim, logo em seguida, para a melhor academia da região, aquela em que o parque infantil é um lugar realmente mágico, e onde o procedimento para receber as crianças e retirá-las se assemelha a segurança de um aeroporto internacional. Estive recentemente em uma destas filas para colocar meus filhos no parque, depois de arrastar um deles, literalmente, pelo estacionamento, com a outro no outro braço, ambos a gritar.

 

Para vestir os meninos já tinha sido um calvário. Eu corri atrás do Matthew pelos habituais quinze minutos pela casa, o que para ele, é uma ótima brincadeira. Quando eu finalmente saí de casa, percebi enquanto dirigia que, apesar de todos os meus filhos estarem vestidos (e até combinando), eu havia esquecido de colocar os meus próprios sapatos.

 

Quarenta e cinco minutos mais tarde do que eu esperava chegar à academia, e enquanto eu ligava a esteira, ouvi meu nome ser chamado no interfone, e eu (assim como todas as outras pessoas da academia) pude ouvir meus filhos ainda gritando no fundo. Hora de ir embora da academia, apenas 10 minutos depois de chegar, o tempo máximo que as babás de lá deixam crianças chorarem.

 

5) Comida é o cigarro da mãe moderna

 

Minhas amigas mamães e eu gostamos de dizer que há algo errado com as nossas tireóides. Afirmamos que nossos hormônios pós-parto são os culpados pela nossa falha na perda de peso, mesmo que nossos médicos prontamente discordem. Dizemos isso enquanto bebemos vinho e enchemos a cara de bolo.

 

A verdade é: eu, como muitas outras mães, tornei-me uma comedora emocional, e não é preciso ter um tipo específico de emoção. Qualquer emoção, em especial a tensão do dia-a-dia, faz da contagem de calorias mais uma tarefa inacabada, e chocolate nunca esteve tão gostoso.

 

Em meio a tantas desculpas, no entanto, hoje tomei uma decisão impensável: joguei fora todas as roupas de categoria três, as roupas de gorda. Isso pode significar que por um tempo eu tenha que andar totalmente nua por falta de qualquer coisa que realmente me sirva.

 

Eu deveria ser mais gentil comigo mesma, já que tive duas crianças em dois anos, mas vejo que é hora de começar a reconhecer aquela mulher no espelho mais uma vez, porque ela anda perdida, sem tempo para si, e antes que eu esqueça completamente quem ela é.

 

Mariana Parreiras

Mariana Parreiras e os pequenos John e o Matthew. Foto: Arquivo pessoal.

 

Mãe do John e do Matthew, Mariana Parreiras, 35 anos, escreve semanalmente para a coluna “Relato de Mãe”. Num texto leve e moderno, ela conta sobre a delícia e a dor de ser mãe. Formada em Comunicação e com uma carreira consolidada em grandes empresas americanas, Mariana colocou a vida profissional em segundo plano para cuidar da educação dos filhos. Acompanhe!

 

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